quinta-feira, 23 de julho de 2020

Comitê alertou Pazuello que, sem isolamento, país poderia levar até 2 anos para controlar a pandemia

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O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello
O documento também dizia que, sem isolamento, o país poderia levar até dois anos anos para controlar a pandemia.
Mas, ao contrário do alerta, Pazuello orientou a abertura das atividades, quando o país já tinha mais de um milhão de casos.
Os técnicos do Ministério da Saúde fizeram o aviso em maio. O alerta ao ministro interino revelado pelo jornal "O Estado de S. Paulo" e está registrado numa ata de reunião do Comitê de Operações de Emergência em Saúde Pública, à qual a TV Globo também teve acesso.
A reunião do comitê ocorreu no dia 25 de maio. O grupo, responsável pelo planejamento, organização e controle das medidas oficiais de combate ao coronavírus, é comandado pela Secretaria Nacional de Vigilância em Saúde do ministério.
Fazem parte do comitê integrantes do ministério, gestores locais da área de saúde além de representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O Ministério da Saúde não forneceu a lista dos participantes desse encontro.
A reunião ocorreu no mesmo dia em que foi publicada no '"Diário Oficial" a exoneração do então secretário da pasta Wanderson de Oliveira.
A TV Globo apurou que o ministro interino Eduardo Pazuello teve acesso à ata do encontro. Ele estava há dez dias no comando da pasta quando a reunião ocorreu.
No documento que chegou até o ministro, os técnicos afirmaram que "toda pesquisa leva a acreditar que o distanciamento social é favorável para a população e o retorno da economia mais rápido".
Disseram também que "medidas sociais drásticas dão resultados positivos" e que "sem intervenção, esgotamos UTIs, os picos vão aumentar descontroladamente, levando insegurança à população que vai se recolher mesmo com tudo funcionando, o que geraria um desgaste maior ou igual ao isolamento na economia".
A reunião do comitê concluiu que "sem isolamento, será necessário um tempo muito grande, de um a dois anos para controlarmos a situação".
Apesar dos alertas da equipe técnica, o Ministério da Saúde adotou orientação contrária: não reforçou qualquer pedido para que os estados e municípios endurecessem as regras de isolamento social da população.
Três semanas depois dessa reunião, o ministério publicou uma portaria sobre o retorno das atividades, enfatizando seus benefícios, e reforçou que essa decisão cabe às autoridades locais.
O tema da portaria são medidas de prevenção, de controle e de mitigação da transmissão da Covid-19 para o retorno das atividades.
Ao contrário do que foi alertado pela equipe técnica, o texto, assinado por Pazuello diz que "retomar as atividades e o convívio social são também fatores de promoção da saúde mental das pessoas, uma vez que o confinamento, o medo do adoecimento e da perda de pessoas próximas, a incerteza sobre o futuro, o desemprego e a diminuição da renda, são efeitos colaterais da pandemia pelo sars-cov-2 e têm produzido adoecimento mental em todo o mundo".
A portaria foi publicada em 19 de junho, mesmo dia em que o Brasil ultrapassou um milhão de casos confirmados. Neste dia, as mortes pela Covid-19 chegaram a 49 mil.
Procurado, o Ministério da Saúde ainda não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem.
O epidemiologista Roberto Medronho, especialista em saúde pública da Universidade Federal do Rio de Janeiro, avalia que se o ministério seguir a orientação de especialistas é possível começar a reduzir o número de mortes.
"Nós estamos lidando com o problema mais grave dos últimos 100 anos na saúde do país, provocando crise humanitária, no Brasil e no mundo. Nós precisamos de que a direção central desse processo seja do Ministério da Saúde, e que seja, mais do que nunca, sejam ouvidas as pessoas que realmente tenham experiência para o controle e o combate da pandemia de Covid-19", afirmou o médico.
"Ainda há tempo, podemos reduzir o número de mortes e de sofrimento, mas eu faço aqui um apelo para que estejamos todos unidos contra este vírus. Foi assim que mundo inteiro agiu e foi assim que em muitos lugares o êxito foi muito importante para o enfrentamento desse grave problema", concluiu Medronho.

Fonte: G1

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